Há umas semanas
passei por uma situação que até então só tinha ouvido falar. Sou professor, aliás
estou professor e não tenho carro, por isso costumo voltar para casa de carona
com outros professores. Nesse dia, a alma que me ajudou a economizar a passagem
foi o professor de Matemática. Saímos da escola às 21: 30 depois de mais um dia
normal e eis que escutamos aquele famoso som da sirene que grita em alto e bom
som: Vai dá merda!
Para começar bem a abordagem policial, nosso
cinto de segurança travou e não conseguíamos sair do carro, deixando o clima
aquém da devida tranqüilidade. Depois de uns segundos longos e uns olhares
desconfiados da dupla conseguimos sair do carro, não sem antes escutar: “então
quer dizer que se o carro pega fogo têm dois carbonizado?”. Daí pra lá ocorreu
tudo dentro do script, documento do carro, carteira de motorista, minha
identidade etc. Estava quase tudo ok, exceto o fato de o carro não estar
vistoriado. Eis que presencio a seguinte conversa.
- O
carro não está vistoriado, mas a vistoria já está agendada para o dia 25 de
Novembro.
- O
senhor imprimiu no site do DETRAN o cartão de confirmação da vistoria que
contém a data do agendamento?
- Não.
-Então,
infelizmente vamos ter que apreender seu carro OU O SENHOR VÊ AÍ O QUE PODE
FAZER PELA GENTE...
Soaram as palavras mágicas. O professor em
questão tirou 20 reais da carteira, deu ao policial que muito educado
agradeceu, nos desejou boa noite e saiu em busca da próxima vitima.
Fiquei com aquela situação na cabeça
lembrando de todos os relatos indignadas que eu já ouvi, e que em mim doíam
forte pelo fato de o meu pai ser policial militar. Mas será que a sociedade
brasileira está preparada para ter uma policia correta?
A corrupção, principalmente a policial,
depende da cumplicidade. Para o professor de Matemática foi lucro “perder”
aqueles 20 reais, já que o carro dele seria apreendido, ele teria que pagar uma
multa e pagar por cada dia que o carro dele esteve estacionado lá, além de
outros transtornos.
O que chamam de “jeitinho brasileiro”,
muitas vezes não passa de um ato desonestidade, que é visto como esperteza.
Quantas vezes não pedimos para um guarda fazer vista grossa para o fato de
estarmos sem cinto e caso o pedido seja aceito saímos pagando de “malandro bom
de papo”? Quantas vezes ouvimos nossos amigos putos da vida porque um policial
resolveu cumprir seu dever e multou o coitado ao invés de estar prendendo
bandido? A fala do ex-delegado/deputado Hélio Luz ilustra bem o que eu estou
dizendo.
A segurança do estado do Rio de
Janeiro está em crise e não é de hoje. As greves dos militares cariocas,
baianos, e muitos outros casos mais recentes, trouxeram bons motivos para
pensarmos, tipo piadinha de Facebook, em como a policia é, como nós a vemos e
como ela deveria ser. Após esse exercício de reflexão pense no que nós estamos
fazendo para termos uma policia melhor. Não adianta sermos
modernos e continuarmos querendo uma policia arcaica e corrupta.